O que é sedução?
Poder de atração e de distração, poder de absorção e de fascinação, poder de destruição não só do sexo mas do real em seu conjunto, poder de desafio – nunca uma economia de sexo e de fala, mas um lance de graça e violência, uma paixão instantânea a que o sexo pode chegar, mas que também pode se esgotar em si mesma.

A sedução é aquilo que desloca o sentido do discurso e o desvia de sua verdade. Ser seduzido é ser desviado de sua verdade. Seduzir é desviar os outros de sua verdade. Essa verdade, a partir de então, forma um segredo que lhes escapa.
A sedução tem a força de um enigma a resolver – o outro é um enigma e, para seduzi-lo, é preciso se tornar um outro enigma para ele. Um duelo enigmático, em que a sedução é sua resolução sem que o segredo seja revelado.
O segredo. Qualidade sedutora, iniciática, daquilo que não pode ser dito porque não tem sentido, daquilo que não é dito e que, apesar disso, circula. Assim, eu sei o segredo do outro, mas não digo, e ele sabe que eu sei, mas não levanta o véu. A intensidade entre os dois nada mais é que o segredo do segredo. Essa cumplicidade nada tem que ver com uma informação oculta. Ademais, se os parceiros quisessem revelar o segredo, não poderiam, pois não há nada há dizer.
Não há ativo nem passivo na sedução, não há sujeito ou objeto, nem interior ou exterior; ela atua nas duas vertentes, e ninguém as limita ou separa. Ninguém, se não for seduzido, seduzirá os outros, ser seduzido é a melhor maneira de seduzir
Mas seduzir não é a mulher se produzindo como mulher – porque tudo aquilo que se produz, recai no registro do poder masculino. Todo poder masculino é o poder de produzir. A sedução não é o terreno de jogos e astúcias sexuais, mas “uma forma irônica e alternativa, que quebra a referência do sexo, espaço não de desejo, mas de jogo e desafio”.
A pornografia promove de forma exarcebada o gozo feminino. Seja a mulher sujeito (exige o gozo “pela tomada de consciência da racionalidade de seu próprio desejo”) ou objeto (oferece-se ao gozo num estado de prostituição total), por toda a parte se propõe a culminância de sexo, voracidade hiante, devoração. Não é por acaso que todo o pornô gira em torno do sexo feminino. Numa sexualidade intimada a dar suas provas e a se manifestar sem interrupção, a posição marcada masculina é frágil.
Portanto, a assunção do feminino corresponde ao apogeu do gozo e à catástrofe do princípio de realidade do sexo, agora hiper-real. Pois o pornô faz o sexo mais real que o real, o que causa sua ausência de sedução. Faz um acréscimo de realidade ao exagerar o pitoresco dos detalhes anatômicos. Vê-se o que nunca se viu, é o excesso de realidade. Não há espaço para o imaginário nesse espaço de mais-verdade, mais-exatidão.POR ISSO NINGUÉM ASSISTE MAIS DO QUE 10 MINUTOS KKK. A sedução é perseguida à força da visibilidade. Dão-nos tanto, a cor, o contorno, o sexo em alta fidelidade, que não há mais nada a acrescentar, ou seja, a dar em troca. É a repressão absoluta: dando-nos um pouco demais, cortam-nos tudo.
‘Ama a teu próximo como a ti mesmo’: esse velho problema do Evangelho está resolvido – próximo sou eu mesmo.
O amor é então total. A total auto-sedução amar é um desafio e uma aposta: desafio ao outro de amar de volta – ser seduzido é desafiar o outro a sê-lo.
Não há outro limite para esse desafio que não o de ser ainda mais seduzido ou de amar mais do que eu amo senão a morte.
autor: ROBISON FOGAÇA.
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